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Aqui.

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ela diz pra eu não esquecer que a minha vida está desfarelada assim que boto os pés em casa depois de um dia bom com os meus amigos

ela bagunça os ponteiros do relógio.  3 minutos viram 30 facilmente.

Ela deita em cima do meu peito, me debilitando de fazer as coisas mais simples como apagar a luz do quarto.
e faz os outros acharem que é preguiça.

Ela é a broca que tenta furar uma parede infinita. Conta os grãos de areia da praia de Copacabana até à Florida e tenta enxugar seus mares.

Ela puxa minha orelha e sussurra ácidos na madrugada. Distorce a verdade. Planta dúvidas do amor que sou capaz de dar e de receber. Principalmente de receber.

Ela me faz ter vontade de soluçar que nem uma criança pequena e ansiar por colo.
e ela tentará corroer os braços de quem acolhe.

Me faz cada dia entender a garotinha dos clipes da Sia.

Distorce meu conceito de drama, de exageros e de extremos. Me faz me desculpar pela minha existência mais vezes do que me orgulho admitir.

Ela me bota dentro de Matrix e me o…

Covarde.

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Uma vez meu pai me disse que falar não encarando nos olhos da outra pessoa é covarde. uma outra vez um professor me disse que os olhos são janelas para a alma.

Eu não costumo falar com gente olhando fixamente nos olhos, pra mim não é fácil ter que mergulhar nos açudes turvos e lagos claros que são os olhos das outras pessoas.

Queria perguntar pro meu pai se é fácil pra ele encarar as sobrancelhas franzinas junto à mágoa no olhar de um amigo por causa de um vacilo teu. pergunto se  tem coragem de enfrentar o golpe que é encarar o olhar decepcionado de tua mãe por não ter passado no concurso que tanto queria. De novo. Se consegue lidar com o olhar de um ente querido que está resistindo contra um furacão interno que você não pode salvá-lo.

O que tô querendo dizer é que é muito difícil  adentrar em um universo diferente do meu que eu nunca conhecerei 100%, que sempre estará passando por metamorfoses nas quais não participarei nem de um décimo. Isso tudo em apenas questões de segundos en…

Infinitos.

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Quando criança, me peguei várias vezes encarando minha imagem no espelho e questionando sobre meu corpo. Não que eu desgostasse algo em mim, crianças, normalmente, desconhecem o mau hábito de julgar nossa própria aparência.

Na verdade, eu me perguntava como aquela imensidão de pensamentos desordenados, ideias meticulosas, histórias incríveis e universos fantásticos podiam estar limitados naquele pequeno reflexo de um corpo moreno. Apenas não tinha como caber toda essa imensidão.

"Isso não sou eu" lembro de ter pensado várias vezes e repito, não estou focando no sentido estético.

Também tinha um tique que me ajudava a confirmar essa tese. Quando eu me empolgava muito, mexia as mãos involuntariamente, e, para mim, aquilo era a melhor forma de demonstrar que aquele pequeno-grande universo que me representava não tinha como caber naquele corpo, ele se esvaía pelas extremidades dos dedos em uma voltagem ilegível, era bom pra mim.

Mas, aparentemente, ruim para o resto.

Assim com…

Ideia.

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A ideia do que é o amor sempre patrulhou a minha mente.
Algumas pessoas a tratam como uma pessoa especial, uma memória dolorosa guardada no baú de nossas mentes, um acidente inevitável com direito à fratura exposta e por aí vai.
Fui perguntar à bisa Maria o que era o amor de verdade e ela me disse isso:

"Andorinha, o amô nunca vai ser gente como a gente, ele é o respeito que tem no teu olhá e o carim que tu carrega no coração. Ele também é aquele bolo de emaranhado da tua mente e aquela dor de arrebentar o quengo. Ele vai te acompanhá em todos os teus desabrochares, é a zuada das risadas dos teus amigos e a luiz de todas as coisas que tu se importa. Num se prenda na ideia do amô ser gente como a gente. Essa é a única forma que machuca de pouquim em pouquim nossa alma."

Maré.

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na minha mocidade, gostei de um menino de olhos opacos.
era gente boa, bem quietinho, bom de papo, bem ameno.
mas tínhamos nossas disparidades.
se gritava, me mandava calar, se brincava, dizia que era coisa de moleque, se bagunçava, fingia que não via, se me extrovertia, falava que não era hora pra ser assim.
acho que o relógio dele estava quebrado porque hora nunca era.
com o tempo fui deixando pra lá,
até que um dia ele começou a namorar.
a moça era gente boa, bem quietinha, boa de papo, bem amena.
fiquei algumas noites imaginando se os parafusos soltos eram os meus, até que percebi que o problema estava nos parafusos alinhados
que não eram meus.
tem gente que gosta de ser Lagoa mas eu era mais.
bem mais.
eu era Mar.

Morada.

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Casa a gente se cria, se encontra dentro de gente.

É sentir conforto sem edredom, risada sem chaplin, mas com muvuca tipo política brasileira. Mas casa é casa, às vezes bagunçada, mas nunca esvaziada.

Se a muvuca destruir teto e parede, há de lembrar que tem estrela no céu, brisa em vento e cacos no chão.
Cacos para reconstruir a casa dentro de gente, de quinquilharia em quiquilharia e com decoração mais bonita, porque nela mora gente pra cuidar, gente pra amar.

Casa a gente se cria dentro de gente e com metro quadrado que se caiba em um abraço, daqueles que dói porque acaba, e não a pilha do relógio

Casa a gente carrega pra todo lugar, de las vegas às cegas, de japão à furacão.

Casa se tem viola, birita, vitrola, visita. Visita sem mala pra partir. Visita que vira gente que mora dentro da gente.

Casa se grita. Muito. Faz Galvão parecer mosquito pentelho. Casa se grita para o mundo dentro e fora da gente, dentro e fora de roda de gente, e apenas dentro de amor, apenas dentro de…

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento
e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a ta…